Ao longo dos últimos seis a sete anos, em quase todas as reuniões relacionadas ao acesso a medicamentos de que participei, alguém fez a seguinte pergunta:
Por que a Coca-Cola chega às partes mais remotas do mundo, mas os medicamentos essenciais continuam fora do alcance de muitos?
Essa questão leva às mais variadas e interessantes respostas. Para os que trabalham apenas no acesso a medicamentos, a comparação em si é um absurdo. Já os representantes das empresas de produtos de consumo veem nos especialistas da cadeia de suprimentos médicos uma atitude conservadora que não permite aprender com o outro.
Então, há alguns anos, juntamente com dois colegas no INSEAD, decidi decifrar essa questão, na esperança de encontrar respostas que possam ajudar a tornar este debate mais construtivo. Nós conhecemos várias pessoas, entrevistadas por especialistas da cadeia de suprimentos da medicina e da Coca-Cola, e conversamos com alguns empreendedores sociais.
"Fórmula secreta" da Coca-Cola
Descobrimos que o sistema de produção e distribuição da Coca-Cola é construído em torno da informação e dos incentivos. Por outro lado, o sistema da cadeia de acesso aos medicamentos é construído em torno da orientação normativa e da regulação.
Sim, os medicamentos precisam de supervisão regulatória muito mais que a Coca-Cola. E os pontos de venda onde os medicamentos são estocados e vendidos talvez não possam ser tão difundidos como os da Coca-Cola. Mas o aprendizado mais importante é que o sistema Coca-Cola prospera em pequenas, mas habilitadas, unidades empresariais que trabalham juntas para fazer o complexo processo de entrega funcionar sem problemas. As cadeias de fornecimento de medicamentos, por outro lado, trabalham com uma atitude institucional hierárquica que, em alguns casos, dificulta a inovação. A principal razão para isso é a maior necessidade de controle e fiscalização na distribuição de medicamentos, devido aos maiores riscos de segurança envolvidos.
A provisão de cuidados da saúde no mundo em desenvolvimento tem visto benefícios notáveis de inovação social na última década. Os hospitais Lifespring realizam partos com baixo custo e maior qualidade. Aravind, pioneira em baixo custo para modelos de negócios de alto volume, realiza o mesmo com olho e cirurgia de catarata. MedicallHome, as clínicas do projeto Saúde 10 no Brasil, HMRI, MeraDoctor, são exemplos de empresas sociais que tornaram a saúde acessível para 4 bilhões de pessoas.
No entanto, há poucos exemplos de empresas sociais focadas na melhoria do acesso aos medicamentos. E as poucas que existem muitas vezes dependem do apoio de grandes doadores mundiais.
Olhando para a frente
Para as cadeias de suprimentos essenciais da medicina serem eficazes e eficientes, precisamos de inovação social em uma escala semelhante à de prestação de cuidados na saúde.
Isso requer duas coisas:
Primeiro, aqueles que estão no comando dos negócios das cadeias de suprimentos médicos, tanto no nível nacional quanto mundial, precisam abraçar ou reascender a cultura da inovação social. E isso os obriga a ter mais confiança para que a cultura de inovação, a experimentação e o empresariado social não entrem necessariamente em conflito com a garantia de supervisão e controle regulamentar.
Isso está começando a acontecer e há razões para o otimismo. Na semana passada, em Maputo, Moçambique, encontrei-me com uma equipe da iniciativa Clinton Health Access, que está trabalhando com a Coca-Cola e com governo de Moçambique para trazer a experiência da Coca-Cola em planejamento de logística para o sistema de distribuição de remédios no sistema público de saúde do país. No final da semana, em Dar e Salaam, na Tanzânia, encontrei-me com uma equipe da Accenture Development Partnership, que está trabalhando com o sistema de distribuição de medicamentos daquele país. Eles estão colaborando com a Coca-Cola para incorporar a companhia na gestão de desempenho, monitoramento e avaliação, e no planejamento de métodos para a cadeia de fornecimento de medicamentos.
Em segundo lugar, os empreendedores sociais têm que gastar tempo pensando cuidadosamente sobre as necessidades únicas da logística dos medicamentos, e não presumir que são as mesmas da Coca-Cola. Eles têm que incorporar o papel da supervisão regulatória e maior controle em seus modelos de negócios.
A corrida é para ver qual empreendedor social vai se tornar o Aravind de entrega na área médica.
Para ler mais sobre as semelhanças e diferenças entre as cadeias de suprimentos da Coca-Cola e da área médica, por favor leia meu artigo na revista Stanford Social Innovation Review.
Prashant Yadav é pesquisador sênior do Instituto William Davidson (WDI) e diretor da Iniciativa de Pesquisa de Saúde no WDI.