Afinal, qual o estado da arte do campo de negócios sociais/inclusivos no Brasil? O mapeamento realizado pelo Plano CDE e coordenado pela AVINA, Potencia Ventures e Polo ANDE Brasil   identificou 140 negócios sociais/inclusivos[1] em todo pais e foi conhecer 50 deles em profundidade[2].  Nesse post, iremos compartilhar as conclusões mais interessantes e os dados mais surpreendentes que esse mapeamento nos revelou, desvendando um pouco mais das características, dos avanços e dos desafios que esses negócios ainda enfrentam em seu caminho rumo à consolidação e crescimento.

Dos 50 negócios entrevistados, 50% estão concentrados na região Sudeste e 26% no Nordeste A região Sul responde por 14% do total e Norte e Centro-Oeste por 6% e 4%, respectivamente.

Uma análise rápida do perfil dos empreendedores fundadores destes negócios revelou que 8 em cada 10 têm nível superior ou pós-graduação e 78% deles já empreenderam 1 ou mais negócios anteriormente.

Em relação ao foco de atuação, lideram os negócios na área de Educação (34%), seguidos de Microcrédito/Serviços Financeiros (24%), Cultura (24%) e Canais de Distribuição (18%).

Ao analisar os tipos de produtos e serviços oferecidos, chamou atenção o baixo número de negócios em áreas estruturais como Habitação (6%) e Saúde (4%) ambas, críticas para garantir a melhoria da qualidade de vida de pessoas de baixa renda. Cabe a nós entender porque isso ocorre e como podemos superar os obstáculos para estimular mais empreendedores a criarem mais negócios nessas áreas. O mesmo ocorre com produtos e serviços na área de Tecnologia (2%), o que reforça que, assim como ocorre com os negócios tradicionais, o setor de negócios sociais no Brasil ainda precisa explorar melhor as oportunidades para utilizar a tecnologia a serviço da inclusão social.

2/3 dos entrevistados declararam ter desenvolvido seu modelo de negócio por conta própria, mas 1/3 afirmou ter obtido apoio, principalmente de universidades ou inspirando-se em modelos internacionais. Isso demonstra que existe potencial de adaptar e replicar modelos bem-sucedidos no exterior aqui no Brasil.

Uma boa notícia revelada pela pesquisa é que, apesar de seu pouco tempo de existência - 52% dos negócios foram criados nos últimos 5 a 6 anos -  64% deles declararam que já não dependem de doações, sendo que metade já opera em várias regiões do país e 28% têm abrangência internacional. São dados animadores para todos aqueles que acompanham com interesse a consolidação e o potencial de crescimento desse campo.

Ainda sobre sua sustentabilidade financeira, 86% dos entrevistados afirmaram contar com recursos próprios para financiar suas operações do dia a dia, enquanto 10% utilizam empréstimos e 4% contam com o auxílio de doações.

Quando indagados sobre o perfil de seus clientes, estes negócios declararam vender seus produtos e serviços principalmente para indivíduos (74%) e pequenas e médias empresas (60%). Um pouco menos da metade deles atendem grandes empresas (48%) e ONGs (26%). Mas apenas 18% têm o governo como comprador dos produtos/serviços oferecidos, reforçando uma percepção comum a muitos que atuam neste campo de que ainda há muito a desenvolver na relação entre negócios sociais e programas governamentais voltados para as populações mais pobres.

Ao investigar o impacto social gerado por estes negócios, tivemos uma constatação muito importante: a de que o principal público beneficiado pela atuação destas micro e pequenas empresas sociais são pessoas que pertencem às faixas de renda mais baixas de até 5 salários mínimos, com concentração até 2 salários. Esse resultado comprovou a vocação e a capacidade destes negócios em atender às classes DE, com menor ênfase na classe C (de 5 a 10 salários), público que é o principal foco de atenção das empresas de maior porte.

A pesquisa também buscou compreender a relação custo x impacto social. Como se sabe, uma das premissas de um negócio social é criar um modelo de baixo custo que permita oferecer serviços e produtos acessíveis e de qualidade a um maior número de pessoas, maximizando seu impacto social. Perguntados sobre sua preocupação com os custos, os negócios declararam utilizar diferentes estratégias para se manterem competitivos: 40% investem em condições de pagamento, 32% procuram baratear custos de produção enquanto 30% tentam reduzir seus custos com base na produção em escala e 26% têm estratégias diferenciadas de distribuição. Estas estratégias se mostram imprescindíveis, pois caso não possam vender seus produtos/ serviços, 49% de seus clientes os encontraria apenas em locais mais caros e 22% não teria acesso a eles.

A pesquisa também quis saber de que forma os negócios geram impacto social. 86% dos entrevistados disseram possibilitar o acesso a produtos e serviços e 82% afirmaram que o impacto social se dá pelo ingresso de pessoas da base da pirâmide na cadeia de valor, como fornecedores, distribuidores ou donos do próprio negócio. Como se pode ver, pela sobreposição dos resultados, 68% dos negócios gera impacto por meio das duas estratégias simultaneamente.

Por outro lado, causou surpresa constatar que, apesar de terem como principal objetivo gerar impacto social, apenas metade dos entrevistados disseram coletar dados sobre o impacto gerado, geralmente por meio de metodologia própria. Se considerarmos que o foco prioritário deste setor é transformar positivamente a vida de pessoas, esse é um indicador que ainda necessita avançar bastante.

O Polo ANDE Brasil, com o apoio da Potencia Ventures, pretende lançar ainda esse ano uma plataforma virtual que dê visibilidade aos atores entrevistados e funcione como um cadastro de informações atrativo e confiável aos diversos interessados em potencializar os impactos deste campo no Brasil.

Nos próximos artigos, vocês poderão conhecer resultados relativos aos outros atores entrevistados: aceleradoras, incubadoras e investidores do campo de negócios sociais/inclusivos. 

[Nota da editora: Você terá a oportunidade de ouvir ao vivo e a cores a Vivianne falando sobre este mapeamento em um dos painéis da Conferência CHOICE! Fiquem atentos!]


[1] Os critérios de seleção para a identificação dos 140 negócios foram apresentados no post de Renata Bourroul, pesquisadora do Plano CDE - "Definindo o campo: mapeamento traz abrangência dos NS/NI no Brasil".

[2]  Para definir os 50 negócios que seriam entrevistados, o mapeamento focou-se nas micro e pequenas empresas (faturamento de até R$ 16 milhões, segundo critério do BNDES). Além disso, foram excluídos os negócios que ainda dependiam majoritariamente de doações.