Outubro 31, 2011 — 1:44
O Terceiro Setor pode incorporar novos modelos de NS e investimentos? | Parte II
Por Gláucio Gomes, Coordenador de Desenvolvimento Institucional do Ateliê de Idéias e Diretor Executivo da Rummos Assessoria.
O apoio financeiro de governos permitiu às organizações sociais alcançar um patamar completamente diferente de escala em suas ações. O fato é que uma organização pequena no interior de Pernambuco, só como exemplo, sempre teve e ainda tem imensas dificuldades para mobilizar os recursos necessários para seus projetos. Não há uma tradição de doação laica individual no Brasil. E empresas e investidores sociais tendem a priorizar alocar recursos em projetos que estejam mais próximos de suas realidades, em áreas temáticas e geográficas de maior visibilidade ou mesmo de representação social mais positiva.
O interior de Pernambuco não tem um setor empresarial forte e diversificado para suportar, localmente, os projetos e organizações sociais da região. Para alcançar investidores sociais das regiões mais desenvolvidas do país, no Sudeste, essa pequena organização pernambucana precisaria ter um setor de comunicação ou uma estrutura de captação de recursos razoavelmente desenvolvidos. O que não é a maioria esmagadora dos casos - até mesmo, em um ciclo vicioso, porque essa pequena organização não tem recursos para arcar com esse tipo de custos.
Essa pequena organização de Pernambuco conseguiria captar na iniciativa privada, com muita dificuldade, algo em torno de R$ 75 mil - mesmo assim, sendo escolhida em processos públicos de seleção que são bastante concorridos (por vezes, são mais de mil inscritos para 10 a 20 oportunidades de apoio) e onde as organizações com maior visibilidade ou melhor estrutura para elaboração de projetos e comunicação têm maior chance real de serem as escolhidas. Essa mesma organização, no entanto, poderia buscar uma parceria com o governo local ou até mesmo com Ministérios e setores do governo federal. Nesse caso, através de Editais Públicos, poderia mobilizar, para o mesmo projeto, valores bastante superiores.
Independente ou apenas um operador? O acesso a recursos governamentais para dar escala às ações não é um caminho sustentável para as organizações. É verdade que são recursos públicos e se as organizações sociais estão prestando serviços públicos, teriam argumentos para usar esses recursos para seus projetos. No entanto, na prática, esses recursos chegam às organizações com uma série de exigências que engessam suas atuações - são recursos que precisam ser aplicados em projetos desenvolvidos com métodos, estratégias e abordagens pré-orientadas pelos agentes governamentais que aprovam tais investimentos.
Praticamente, as organizações sociais acabam por trabalharem como instrumentos para execução de políticas definidas pelos governos e não de acordo com suas missões, valores e estratégias próprias. Estamos nesse momento discutindo os impactos da mudança de relacionamento dos governos com a sociedade civil nos últimos anos. E é verdade que essa aproximação entre os dois segmentos permitiu a elaboração de políticas públicas participativas em muitos casos. Mas também contribuiu para criação de ciclos viciosos na gestão das organizações, que ameaçam a sua sustentabilidade em maior prazo.
Hoje, grande parte das organizações da sociedade civil ainda não possui as capacidades e os conhecimentos necessários para se desenvolver de modo sustentável - dialogando com o "mundo real", fora da bolha criada pelo acesso a recursos governamentais (ou seja, onde precisam negociar com a iniciativa privada).
O futuro: caminhando para um novo modelo de negócios sociais? Houve uma organização dos canais de investimento social privado no Brasil a partir do fim da década de 1990, principalmente em São Paulo. Empresas começaram a desenvolver ações de responsabilidade social corporativa e institutos empresariais e fundações privadas brasileiras avançaram na formação de um setor de investimento social privado no país.
A última década foi de avanços nesse sentido. No entanto, em um ritmo muito mais lento e geograficamente restrito que o necessário para a sustentabilidade do Terceiro Setor brasileiro. Mais recentemente, um novo modelo, que propõe o desenvolvimento de negócios que sejam rentáveis e, ao mesmo tempo, gerem impacto social positivo para comunidades e grupos sociais em situação de vulnerabilidade, vem sendo introduzido no Brasil. Uma oportunidade, ainda, para que entidades tradicionais criem pequenos negócios em suas cadeias de valor, gerando parte da renda para financiar a manutenção e a escala de seus projetos sociais - em um sistema híbrido de gestão e capitalização dessas organizações para a sustentabilidade de suas atuações.
De um modo ou de outro, as relações entre a iniciativa privada (empresa e investidores sociais) e as organizações sem fins lucrativos precisam se desenvolver de modo mais incisivo, para que se criem canais de financiamento para a sustentabilidade dos programas sociais no país.
O fato é que as organizações sociais brasileiras precisam se articular, se estruturar e se preparar para a criação de novos mecanismos de geração de receitas para seus programas, que sejam efetivamente sustentáveis - ou seja, sejam menos dependentes de fontes instáveis ou excessivamente burocráticas. Como um programa social, por mais inovador e impactante que seja, pode se desenvolver de modo estratégico com o passar dos anos, se os empreendedores não conseguem prever sequer um ano à frente o quanto terão de recursos para financiar seu desenvolvimento? Como pensar em escala de tecnologias sociais nesse contexto?
No Ateliê de Idéias estamos tentando construir um novo tipo de relacionamento com as comunidades. Muitas organizações sociais no Brasil ainda são bastante resistentes a idéia de criar qualquer tipo de relação comercial, ou de negócios, com as comunidades que atendem. As comunidades também não estão preparadas ainda para serem abordadas pelas organizações sem fins lucrativos com essa proposta - afinal, em geral, entendem que esses serviços sociais oferecidos pelas organizações são direitos e que devem ser providos gratuitamente pelos governos, para quem impostos são pagos.
Investidores sociais que estejam interessados em atuar no Brasil precisam saber que há um estágio anterior, de conscientização e formação de organizações e comunidades, para preparar as bases para um novo modelo de desenvolvimento sustentável da sociedade civil organizada no Brasil, reconhecendo sua cultura política e sua história. E existem, de fato, oportunidade e necessidades reais para mudanças nessa cultura política.
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