Nota da editora: penúltimo artigo da série, abordando o panorama brasileiro dentro do tema "inclusividade", já preparando o fechamento da quinta-feira, quando teremos o último desta série bastante conceitual e bem fundamentada. Boa leitura.

"Inclusividade" no Brasil

POR Júnia Faria e Cláudio Boechat

Em um país como o nosso, em que a má distribuição de riqueza é secular, a forma pouco inclusiva como vive a sociedade tem raízes tanto na história quanto na geografia. Em tempos mais antigos, como colônia escravagista, o Brasil não primou pela igualdade social e econômica. Por outro lado, o desenvolvimento brasileiro pós-guerra foi pautado por investimentos estrangeiros em setores produtivos, mais do interesse dos detentores do capital do que pelo desenvolvimento humano, delegado aos governos e à sociedade civil. Mais recentemente, o liberalismo econômico tentou estimular as forças de mercado a atenderem também as necessidades do desenvolvimento humano. Soma-se aos fatores históricos a grande diversidade geográfica do território nacional, que oferece ao ser humano condições muito diversificadas de ocupação e atividades econômicas.

Na avaliação do governo federal, 16,5 milhões de brasileiros vivem em condições de miséria extrema, famílias cuja renda per capita está abaixo de R$ 70 por mês - os critérios internacionais para a miséria variam de R$ 50 a R$ 62 por mês. Para essa parcela da população é que se destina o Programa Brasil sem Miséria, lançado pelo governo brasileiro em maio de 2011. Quase 60% dessas pessoas vivem no Nordeste e 53% concentram-se em áreas urbanas, com menor acesso a saneamento básico, educação, saúde, energia elétrica e abastecimento de água. Aproximadamente 50% desses brasileiros têm menos de 19 anos. A ideia do programa governamental é fazer com que eles estudem e recebam capacitação profissional para, no futuro, garantirem por seus próprios meios um futuro melhor para as famílias que venham a constituir.

O crescente interesse pelos negócios inclusivos se deve, em parte, ao fato de que nos últimos anos o papel do setor privado na promoção da melhoria da qualidade de vida das populações mais pobres foi reconhecido como fundamental. Várias das causas e soluções da desigualdade residem na motivação e operação dos negócios. Algumas empresas parecem ter abraçado a tarefa como uma causa, o que é evidenciado pela mudança de paradigma na responsabilidade social empresarial, com ações tipicamente filantrópicas sendo substituídas por estratégias mais participativas e com impacto mais duradouro. Outras empresas estão dedicadas a produzir para as classes C, D e E, alterando suas linhas de produtos e serviços para atender as demandas crescentes decorrentes do processo de inclusão econômica, que têm basicamente quatro causas principais: a baixa inflação, o aumento constante do salário mínimo, os programas de transferência de renda governamentais (bolsa família, previdência pública) e, talvez o mais forte, o crescimento da economia.

Em pesquisa feita com empresários brasileiros (Boechat et alli, 2010), descobriu-se que:

  • Poucas empresas se declaram já envolvidas em negócios inclusivos e o conhecimento em negócios inclusivos parecem ainda modestos.
  • As atividades no universo das empresas pesquisadas se concentram em capacitação de fornecedores, criação de oportunidades de trabalho e estágio para pobres, e linhas de microfinanciamento.
  • A forma de promover inclusão mais recorrente é a capacitação, tanto de pessoas e grupos marginalizados ou excluídos dos processos produtivos na cadeia de valor da empresa, quanto de pessoas e produtores já envolvidos, para que se tornem mais competitivos.
  • Apesar de muitas empresas apontarem dificuldades em estabelecer indicadores e metas de êxito para suas atividades inclusivas, todas observam uma melhoria com essas atividades. Em especial, registram crescimento na venda de novos produtos que envolvem os pobres e melhoria do desempenho interno da equipe.
  • A maioria das empresas atuantes tem como parceiros em suas iniciativas para o mercado inclusivo: fornecedores, ONGs nacionais, governos municipais e estaduais.
  • Essas parcerias servem para combater algumas das dificuldades já apontadas, em especial a falta de conhecimento e habilidades das pessoas, e a falta de informação sobre o mercado. Parcerias estratégicas, com o objetivo de suprir as carências da empresa com competências de ONGs, outras empresas ou governo são vistas como um caminho eficiente para os negócios inclusivos.

O momento parece propício para a implementação dos primeiros passos rumo à efetivação dos mercados e negócios inclusivos no país. Os primeiros itens a serem trabalhados são: a conscientização, demonstrando os benefícios tanto para os pobres quanto para as empresas; o esclarecimento de como empresas, governos e sociedade civil podem criar valores para todos; e a motivação do setor privado para que a inclusão dos pobres evolua de meta nobre para uma realidade eficiente.

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