Nota da editora: O primeiro artigo desta série trouxe a pergunta "De que forma os mercados e os negócios estão incluindo os mais pobres?", introduzindo a reflexão em relação aos Negócios inclusivos, mercados inclusivos e sustentabilidade. Neste segundo, Claudio Boechat e Junia Faria abordam os aspectos históricos da formação do que reconhecemos como sendo a base das boas práticas nos negócios inclusivos. Boa leitura.   

O PNUD e os mercados inclusivos

 POR Júnia Faria e Cláudio Boechat

Um modelo de relações inspirado nos quesitos da lógica participativa, com processos de promoção da inclusão social desenvolvidos em consonância aos interesses e vontades das comunidades a que se destinam [para maior familiaridade com este tema, leia primeiro artigo da série], começou a se configurar em 2004 na ONU, com o relatório "Desencadeando o empreendedorismo: fazendo os negócios funcionarem para os pobres". Uma das conclusões da Comissão autora foi sugerir que o PNUD apresentasse relatórios suplementares para clarificar como os negócios podem obter valor em mercados com alta presença de populações pobres ou miseráveis. E como, durante esse processo, eles podem criar valores para tais populações.

Buscando respostas e propostas, o PNUD apresentou em 2006 a iniciativa "Desenvolvendo Mercados Inclusivos", estudando como o setor privado pode contribuir para o desenvolvimento humano e para os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. A iniciativa é fundamentada em três objetivos gerais:

  • Conscientizar, demonstrando como os negócios com os pobres podem trazer benefícios, tanto para eles quanto para as empresas.
  • Esclarecer como empresas, governos e organizações da sociedade civil podem criar valores para todos.
  • Inspirar o setor privado a agir.

Apesar de conter oportunidades tanto para as empresas quanto para os pobres, os negócios inclusivos também enfrentam uma série de obstáculos - que não devem ser percebidos como impedimentos, e sim como desafios a serem vencidos.

Uma das maiores dificuldades encontradas pelas empresas é a inadequação dos atuais mercados para receber os negócios de caráter mais inclusivo. A eliminação dessas barreiras é um dos grandes desafios a serem superados. Estudando 50 casos originados em países mais pobres, o PNUD identificou os cinco maiores obstáculos que as empresas encontram pelo caminho na promoção de negócios inclusivos (Quadro 1).

Quadro 1 - Cinco obstáculos para a inclusão social, encontrados pelas empresas

 

  • Informação de mercado limitada - os estudos de mercado geralmente não incluem os pobres, o que significa que as empresas sabem muito pouco a respeito deles. É preciso, antes de tudo, conhecer os pobres, para descobrir como melhor incluí-los.
  • Ambiente regulatório ineficiente - a ausência de estruturas reguladoras é um grande dificultador na realização de negócios com os mais pobres. Sem as garantias de um sistema legal funcional, que assegure o cumprimento de regras e contratos, empresas e pessoas ficam mais vulneráveis.
  • Infraestrutura física inadequada - um dos pré-requisitos básicos para a realização de qualquer tipo de negócio é a existência de uma infraestrutura apropriada. A falta de estradas, acesso à água, eletricidade e sistemas de comunicação são alguns dos empecilhos encontrados.
  • Falta de conhecimento e habilidades - falta capacitação não apenas nas empresas, mas também entre os pobres. Muitas vezes, a falta de conhecimento faz com que os pobres fiquem aquém do seu potencial como consumidores, trabalhadores e produtores.
  • Acesso restrito a produtos e serviços financeiros - ainda há muitas pessoas sem acesso a serviços bancários básicos. Acesso ao crédito e seguros são ainda mais raros. Com essas limitações, os pobres se veem incapacitados para aumentar e proteger os poucos bens que possuem.

Os empreendedores respondem aos obstáculos contornando-os ou eliminando-os. Com base nos mesmos 50 casos, o PNUD descobriu que as empresas utilizam cinco estratégias principais, cada uma delas dependente do contexto local e dos objetivos das empresas (Quadro 2).

Quadro 2 - Cinco estratégias das empresas para enfrentarem os obstáculos

  • Adaptação de produtos e processos - tecnologias inovadoras estão gerando produtos e processos produtivos mais inclusivos, reduzindo o uso de recursos naturais. Combinam assim os objetivos do desenvolvimento humano e da preservação ambiental.
  • Investimento na remoção das restrições de mercado - embora a remoção das restrições legais e conjunturais de mercado possa ser considerada um dever do governo, muitas vezes as empresas precisam tomar a iniciativa por conta própria, nas restrições que estão ao seu alcance. Valor social assim criado abre portas para o compartilhamento de custos com fontes de financiamento incapacitadas de investir em instituições filantrópicas, fundos de investimento social e governos. Assim, o setor privado pode dividir os custos da geração de valor social com subvenções e patient capital.
  • Fortalecimento do potencial dos pobres - os pobres são, muitas vezes, os parceiros mais importantes de um modelo de negócios inclusivo. Ao engajá-los como intermediários e atuar em suas redes sociais, as empresas podem aumentar o seu acesso, confiança e responsabilidade, e as ajuda a cultivarem mercados e expandirem a sua participação nas cadeias de valor.
  • Combinação de recursos e capacidades com outras instituições -como muitos modelos empresariais, os de negócios inclusivos são, geralmente, bem-sucedidos quando se juntam a outros negócios através de parcerias de benefício mútuo e colaboração. Essa convergência também pode ser estabelecida com parceiros não tradicionais, como ONGs e provedores de serviços públicos.
  • Engajamento no diálogo político com o governo - todas as cinco restrições identificadas encontram-se mais ou menos dentro dos domínios da política pública. Quando é mais complicado contornar ou eliminar as restrições de mercado por meio de iniciativas privadas, a estratégia mais comum é se engajar nos diálogos sobre políticas de desenvolvimento. O processo de formulação de políticas é complexo e contínuo, e as empresas podem fornecer informações relevantes sobre os problemas existentes e possíveis soluções.

Teremos na quarta-feira o último artigo desta série, fique atento!

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