Setembro 28, 2011 — 12:30
Aprendendo a medir a “inclusividade” dos negócios - Parte I
"Fazer negócios com os pobres os traz para o mercado - um passo crucial no caminho para acabar com a miséria - e, para os empresários e firmas traz inovação, constrói mercados e gera novas oportunidades de crescimento. Modelos de negócios inclusivos tanto produzem quanto colhem os benefícios do desenvolvimento humano". (PNUD, 2008)
POR Júnia Faria e Cláudio Boechat
A definição adotada para "negócios inclusivos" é inspirada em proposta de 2008 do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) - "os modelos de negócios inclusivos envolvem os pobres no processo de desenvolvimento econômico no âmbito da demanda, como clientes e consumidores, e no âmbito da oferta, como empregados, produtores e donos de negócios em vários pontos das cadeias de valor".
Os negócios inclusivos produzem e colhem os benefícios do desenvolvimento humano. Simplificando, são negócios que apresentam possibilidade de lucro para as empresas, contribuindo ao mesmo tempo para a qualidade de vida dos mais pobres, sem agredir o meio ambiente. Negócios inclusivos são, portanto, aqueles que, em sua operação:
- Têm a intenção de gerar lucro para a atividade empresarial
- Envolvem os pobres, contribuindo para melhoria de sua qualidade de vida, mas não o fazem de forma assistencialista ou subvencionada por recursos públicos
- Promovem a recuperação e a preservação do meio ambiente.
Mercados inclusivos são aqueles que acolhem esses negócios de forma competitiva. Dessa forma, negócios e mercados inclusivos detêm um potencial de transformação significativo, porque propõem elementos que permitem ao capitalismo se aproximar do ideal - ser um instrumento eficaz de promoção do desenvolvimento sustentável.
Negócios inclusivos, mercados inclusivos e sustentabilidade
Aprendemos aos poucos que não existirão negócios inclusivos sem mercados que os suportem. E que não existirão mercados inclusivos sem uma sociedade inclusiva. Para ser eficaz, o processo de inclusão tem que ser participativo, o que pode parecer lógico, mas ainda não é. Por melhores intenções que tenham, os processos de promoção da inclusão social não podem ser desenvolvidos totalmente independentes dos interesses e vontades das comunidades a que se destinam. Decisões tomadas sem levar em conta a voz da comunidade e implementadas por agentes externos podem não trazer resultados ou até mesmo trazer resultados adversos. É preciso que as comunidades aceitem e, mais do que isso, se apropriem de seu desenvolvimento. Da mesma forma, ao procurarem adotar modelos de negócios inclusivos, as empresas devem considerar o engajamento com os mais pobres como regra geral para suas estratégias, considerando o papel que assumem no mercado inclusivo, como consumidores, trabalhadores, empreendedores ou proprietários.
Como pano de fundo, há um fator complicador. A inclusão não pode se dar por meios que continuem a destruir o meio ambiente. A questão decorrente é: Como incluir de forma sustentável? Como promover a inclusão social, a melhoria da qualidade de vida e o aumento de IDH de forma sustentável?
Como salientado por Boechat e Menezes (2008), se, por um lado, a promoção do desenvolvimento humano dada pelo crescimento de mercados inclusivos pode favorecer uma diminuição da dependência das atividades ligadas à extração de recursos naturais, por outro lado, o aumento do acesso a produtos e serviços pressupõe um acréscimo na utilização de recursos da natureza. O aumento do poder de compra da população de baixa renda, que resulta da "inclusividade" dos mercados, faz com que a população da base da pirâmide passe a consumir mais (alimentos, energia para habitação e transporte, habitação). Apesar de ser positivo do ponto de vista econômico-social, pode trazer sérias consequências no longo prazo, se gerar aumento da demanda por recursos naturais. Vale lembrar que, além da pobreza, já carregamos, em termos globais, uma pegada ecológica que excede a capacidade de regeneração do planeta em cerca de 30%.
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