Agosto 15, 2011 — 8:16
Imagens deste post cedidas por Melanie Edwards
Mobile Metrix e o melhor entendimento de quem é a BoP
NextBillionBrasil entrevistou Melanie Edwards, fundadora do Mobile Metrix, uma organização inovadora de pesquisa de mercado que oferece serviços de coleta, análise e mapeamento de informações sobre a "Base da Pirâmide" (BdP) para governos, fundações e empresas em todo o mundo. A Mobile Metrix ajuda seus clientes a entender melhor e, consequentemente, atender de modo mais eficiente as comunidades da BdP, ao mesmo tempo em que conecta estas populações "invisíveis" aos recursos, produtos e serviços de que necessitam.
Seu sistema de pesquisa utiliza mão de obra local para coletar dados porta a porta através de equipamentos eletrônicos portáteis, garantindo um alcance mais rápido, preciso, seguro e econômico. Vale a pena observar a Teoria da Mudança, que dita a linha de trabalho da Mobile.
A Mobile Metrix foi lançada no Brasil, onde 170 milhões de pessoas (75% da população do país) vive atualmente na BdP - representando um Mercado de US$ 1.38 trilhões (IFC).
Mas o Brasil não é o único foco da Mobile Metrix. Nesta conversa ficou clara a maior motivação deste time: saber quem são os mais de 4 bilhões de pessoas que vivem em mais de 120 países em desenvolvimento, com menos de US$ 8/dia (IFC).
A Mobile Metrix é apoiada por AVINA, Echoing Green e Fundação Kellogg. Confira abaixo a entrevista.
NextBillion Brasil: Qual foi sua motivação para construir a Mobile Metrix?
Melanie Edwards: A motivação para meu trabalho surgiu a partir de uma indagação que nasceu após vivenciar inúmeras experiências onde trabalhos de pesquisa de mercados (e das populações que os compõem) traziam tamanha imprecisão em seus dados, que não havia outro caminho que não fosse buscar um melhor entendimento dos métodos utilizados pelas empresas, instituições, organizações e governos nas pesquisas que realizavam. Presenciei casos em que dois relatórios que tinham o mesmo objetivo de avaliação traziam diferenças gritantes em seus resultados. Por exemplo: ao trabalhar na comunidade do Morro dos Macacos, no Rio de Janeiro, em 2005, recebi números populacionais diferentes de duas agências governamentais. Uma falava em 5.000 habitantes e a outra falava em 60.000 residentes. Ocorreu-me que, se podíamos errar em 55.000 pessoas, imagine o quão distantes da realidade poderíamos estar em todo o mundo, e como esta informação pode impactar os investimentos e financiamentos que são realizados. Estamos gastando pouco? Estamos gastando muito?
Algumas características na forma de abordar o público pesquisado poderiam ter feito toda a diferença nestes casos. Por exemplo: além da questão da formulação de um bom questionário, quem entrevistava o público? Qual era o retorno dado a essas pessoas após elas responderem a pesquisa? E - a pergunta mais importante, em minha opinião - quem eram essas pessoas entrevistadas e o que elas realmente tinham a dizer? Quais eram as demandas sociais destes grupos pertencentes à Base da Pirâmide? Quem é a Base da Pirâmide? Naquela época, poucas respostas existiam para estas perguntas.
N.B.: O que você descobriu em relação a essas perguntas inquietantes?
M.E.: Descobri ao longo do tempo que o mais importante não era apenas fazer perguntas. As pessoas das classes que compõem a BdP tem características muito únicas, que se forem bem trabalhadas, promovem grandes resultados.
Em primeiro lugar, a Mobile Metrix atua diretamente dentro de comunidades aplicando pesquisas, mas de uma forma diferente: contrata e treina jovens da comunidade local como pesquisadores. Desta forma, são os próprios jovens da comunidade que abordam seus semelhantes.
Em segundo lugar, os residentes recebem um retorno real em relação aos resultados das pesquisas de diferentes formas. Podem acessar as informações facilmente pela internet, recebem formação e educação dos pesquisadores, e participam também de seminários dentro de cada comunidade sobre assuntos de seu interesse.
Em terceiro lugar, quando o jovem termina seu período de trabalho e retira a camiseta de seu uniforme, ele permanece na comunidade, sendo um agente permanente, compreendendo as dúvidas das pessoas com quem convivem e levando ainda mais conhecimento para dentro de seus lares.
Estamos trabalhando para que, no futuro, tenhamos um mapa das características da Base da Piramide na América Latina. Isso permitirá ao governo, às organizações e às empresas atuarem junto a estas comunidades a partir de necessidades reais.
N.B.: Existe algum tipo de relacionamento entre quem encomendou a pesquisa e a comunidade pesquisada?
M.E.: Sim. E isso é uma exigência da Mobile Metrix no momento da contratação de nossos serviços. Existe o precedente de que, ao nos contratar, a empresa, organização ou governo contratante deve se comprometer em dar um retorno na prática para aquela população. É uma via de mão dupla: a comunidade cede sua voz, pensamentos e idéias para as pesquisas, mas também recebem em troca informação, produtos e educação. Depende de cada caso.
N.B.: Poderia citar um caso, um exemplo prático?
M.E.: Um ótimo caso para exemplificarmos, é a pesquisa que a Johnson&Johnson encomendou para nós, buscando entender inúmeros aspectos em relação à Dengue. Quais eram os hábitos daquela população que estava sofrendo com os surtos da doença (em 2008), quais eram suas condições de moradia e hábitos cotidianos, como ela entendia a forma de contágio da doença e sua forma de prevenção, entre muitos outros aspectos. Neste caso, também utilizamos jovens das comunidades como entrevistadores, aplicando o questionário porta-a-porta, durante dois meses. A Johnson&Johnson se comprometeu a distribuir repelentes para os participantes da pesquisa, além de ter ajudado também na promoção de informação e educação sobre a Dengue. Uma verdadeira campanha iniciada em morros cariocas: Morro dos Macacos e Vila Pereira da Silva. Houve um forte trabalho de acompanhamento, compartilhando métodos de prevenção e produtos, assim como mensurando a mudança de comportamento nas comunidades participantes. [acesse o Flickr de a vez do morro, contendo uma série de fotos referentes ao Projeto Dengue]
N.B.: Você acredita que nos últimos tempos tem havido um crescimento na procura por pesquisas sobre a BoP por empresas?
M.E.: Com certeza! Especialmente de dois ou três anos para cá. E não só por governos, mas por empresas também. Neste período, não só se reconheceu que a BoP é composta por pessoas que formam um mercado, que se bem trabalhado pode se tornar muito rentável, mas também existe hoje a mentalidade de que estas pessoas tem necessidades únicas, que não se comparam com as de nenhuma outra classe social. Aprendeu-se também que ouvir a juventude é primordial neste processo. Os jovens de hoje não aceitam mais determinados comportamentos ou atitudes impostas de fora para suas vidas. O papel deles não é somente de contestar, mas eles trazem um fortíssimo potencial de mudança, por conta de toda a paixão que tem. Suas ações são diariamente potencializadas, não somente pelo processo de informação e pelo convívio com a tecnologia, mas especialmente por que eles aprenderam que tem o que falar, eles sabem o que querem expressar e buscam serem ouvidos, replicando suas experiências.
NB: Quais os próximos desafios que a Mobile Metrix enfrentará e quais os planos?
M.E.: Mobile Metrix continuará a trabalhar no Rio, em um programa em aliança com AVINA, Governo do Rio e Incubadora de Negócios da PUC Rio, a Gênesis. No médio prazo ampliaremos nossa estrutura atual para outros países da América Latina e, a longo prazo, nossa meta é o levantamento de 950.000 famílias (aproximadamente 3,8 milhões de pessoas ou uma subida de 1,4% projetável da população da América Latina que na BdP).
A partir destes dados e de sua análise meticulosa, vamos identificar de maneira mais ampla as principais tendências, necessidades, problemas e possíveis soluções relativas à população da BdP.
N.B.: Como as pessoas podem saber mais sobre Mobile Metrix?
M.E.: Confira aqui como fazer para se tornar um cliente, parceiro ou a comunidade do Mobile Metrix. Este link serve como caminho.
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Aqui você obtem o relatório completo do caso da Johnson & Johnson e o estudo sobre a Dengue. Enquanto aqui, conheça o caso Bolsa Família, também no Rio de Janeiro, em parceria com o Governo Municipal do Rio.
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