O NextBillion Brasil leva até você a chance de conhecer a Auire Tecnologias Acessíveis, através de uma conversa com Fernando Gil e Nathalia Sautchuk Patricio. A história desse negócio está profundamente ligada com a experiência dessas pessoas na universidade e a experiência que tiveram enquanto estudantes. Hoje a Auire se encontra em pleno desenvolvimento e faz parte do Unreasonable Institute.

NBB: Como surgiu a ideia de empreender? Houve um estímulo dentro do espaço universitário?

A ideia de empreender veio do nosso conhecimento da Artemisia e dos modelos de negócios sociais. Percebemos que poderíamos aliar as nossas carreiras com a vontade de promover impacto social no mundo; que trabalhar na área social não precisava ser algo apenas para os fins de semana e através de voluntariado. A gente poderia ajudar a construir a história do campo de negócios sociais. É isso que nos motiva e impulsiona.

NBB: Como foram as primeiras pesquisas e concepções que originaram a AUIRE?

A ideia do nosso primeiro produto, o Auire Prisma, foi resultado de um projeto de uma disciplina do curso de engenharia. O projeto foi motivado por uma demanda identificada junto a uma organização que trabalha com pessoas com deficiência social de que atualmente as tecnologias assistivas são todas importadas e, portanto, são revendidas no Brasil por um alto custo, inviabilizando por vezes a obtenção pela grande parcela das pessoas que necessitam.

Na universidade, ambos éramos envolvidos com o Poli Cidadã, programa de responsabilidade social, e através dele tivemos a oportunidade de atuar em diversas atividades socio-ambientais, como projetos em comunidades carentes nos estados de São Paulo, Tocantins e Mato Grosso do Sul em parceria com estudantes do Massachusetts Institute of Technology (MIT), EUA.

Em 2008, representando o Poli Cidadã, fomos a um evento de empreendedorismo social universitário. Nesse evento, conhecemos a Artemisia e tivemos o primeiro contato com o modelo de negócios sociais. Começamos a nos interessar por esse modelo e a participar de eventos e formações promovidos pela Artemisia.

Em 2009, conhecemos o Unreasonable Institute, que também trabalha com negócios sociais e decidimos submeter uma ideia. De princípio, ainda tínhamos muitas ideias em mente. A decisão por retomar o antigo projeto de faculdade só ocorreu quando, em meio as discussões, recebemos um e-mail muito sensibilizador de uma senhora que perguntava se estávamos vendendo o identificador de cores para que ela desse para o irmão que acabara de se tornar deficiente visual.

NBB: Qual o principal escopo da AUIRE?

A Auire Tecnologias Acessíveis tem como sua missão melhorar a qualidade de vida das pessoas com deficiência através da universalização do acesso à tecnologias assistivas. Além disso, queremos desenvolver tecnologia nacional, fazer produção local e de forma inclusiva, empregando pessoas com deficiência.



NBB: Quais os investidores ou supporters que estão envolvidos com esse projeto?

Temos diversas instituições que nos tem oferecido suporte em vários níveis. A Fundação Dorina Nowill para Cegos e a Laramara tem ajudado muito a nos aproximar do público-alvo do nosso primeiro produto, e a entender as suas reais necessidades e anseios. A empresa Bit9 tem nos dado um apoio técnico importante para o aprimoramento da tecnologia desenvolvida. A instituição Solar Ear nos ofereceu espaço para as atividades e aceitou o desafio de produzir o Auire Prisma. Tanto a Artemisia quanto o Unreasonable Institute nos ajudam muito em networking e capacitação de capital humano. A Artemisia ainda tem nos ajudado com a parte de legalização e apoio em capital humano.

NBB: Quais são os próximos passos da AUIRE?

O próximo passo mais imediato é o começo da comercialização do nosso primeiro produto. Estamos conversando com potenciais distribuidores. Nesse momento, também estamos em campanha em uma plataforma de crowdfunding chamada Benfeitoria. Nessa plataforma, a pessoa pode tanto dar uma quantia qualquer em dinheiro para ajudar na doação do Auire Prisma para algum deficiente visual de baixa renda, quanto também fazer a compra do dispositivo. Para viabilizar a produção do primeiro lote de dispositivos precisamos atingir o mínimo de encomendas de 150 unidades. O prazo dessa campanha é de 60 dias.

Em seguida, com o Auire Prisma no mercado, pretendemos nos focar em desenvolver o próximo produto da empresa, que ainda não foi definido.


NBB: Como foi a entrada no Unreasonable? O que essa experiência agregou à AUIRE?

Através de um portal, tomamos conhecimento do Unreasonable Institute e da chamada para submissão para se tornar um fellow. De princípio, ainda tínhamos muitas ideias em mente.


Aplicamos com a ideia do identificador e ficamos no aguardo de alguma resposta, mas sem grandes pretensões de passar. Ficamos muito felizes quando em dezembro de 2009, recebemos uma resposta de que passamos para a segunda fase, na qual seríamos entrevistados. Ansiosos, esperamos a resposta se passaríamos para a última etapa. Ao passar para a etapa final nos deparamos com um desafio grande: teríamos que conseguir levantar 6500 dólares em doações para bancar os custos da estada nos Estados Unidos. Só que havia um limite semanal de quanto cada pessoa poderia doar. Na primeira semana, cada pessoa só podia doar 10 dólares, na segunda apenas 50 e assim por diante até completarmos o total. E ainda mais: haviam passado 42 empreendedores para essa fase e apenas os 25 primeiros a conseguir o valor iriam para o Instituto.

Tivemos que exercitar muito o nosso networking, fizemos campanha pelas redes sociais, e-mail e aparecemos em diversas reportagens. Tudo isso nos ajudou a sermos a oitava equipe a conseguir o valor total! Percebemos que temos muitas pessoas que torcem para que a Auire dê certo.

Foram 10 semanas em Boulder, no Colorado, participando de diversos treinamentos, pitchs e mentoria. Com certeza, foi uma experiência muito importante para a Auire, pois ajudou a levantar muitas questões que ainda não havíamos pensado, ajudou no amadurecimento da ideia da empresa e nos trouxe um network internacional importante. De certa forma, complementou as nossas competências que eram muito técnicas e pouco da área de administração, gestão e marketing.