Sócio Fundador da Tekoha, empresa que comercializa brindes e presentes sustentáveis, Henrique está há 3 anos facilitando negócios entre empresas e comunidades. Tudo começou durante uma viagem de férias, enquanto Henrique visitava Urucureá (PA), uma comunidade ribeirinha da Amazônia. Desta visita nasceu um sonho: conectar e desenvolver diversas comunidades que antes estavam isoladas. Do desejo inicial até o modelo atual do negócio houve um grande aprendizado principalmente no estabelecimento de diálogo com as comunidades.  Nesta entrevista Henrique compartilha conosco as principais lições para estabelecer uma rede de relações com comunidades.

Qual o seu conselho para aqueles que estão buscando iniciar parcerias de negócios com comunidades?

O mais importante, e mais difícil, é ter um olhar apreciativo. É fundamental não enxergar apenas as carências das comunidades, mas buscar o que eles têm de bom. Este é um exercício muito difícil, pois freqüentemente as comunidades têm recursos financeiros muito limitados. Por outro lado possuem outras riquezas que o olhar apreciativo ajuda a perceber.

Também é comum o inverso! Já presenciei pessoas, principalmente jovens, que chegam às comunidades com uma visão romântica. Ficam deslumbrados com a cultura e com o estilo de vida e não percebem o desejo de mudança. As comunidades tem uma lógica própria, mas querem ter acesso a produtos e tecnologia. Eles buscam o equilíbrio entre a preservação das raízes e o contemporâneo.

Fale um pouco sobre esta "lógica própria" das comunidades?

As comunidades colocam a família em primeiro lugar, portanto se a artesã tem um membro da família que está doente ela irá primeiro cuidar dele para depois se dedicar à produção.  Outra questão interessante é que as comunidades não têm uma mentalidade de acumulação, na maior parte das vezes as famílias produzem o suficiente para gerar uma determinada renda que lhes dê acesso a alimentos e produtos. Para muitas comunidades não há sentido em trabalhar para juntar dinheiro. Muitas vezes presenciamos artesãos que passam uma encomenda para outro que "precisa mais" naquele momento. O senso de coletividade é muito forte.

Outra questão interessante são os prazos. As comunidades que tem muitas de suas atividades influenciadas pelo clima, não conseguem entender a rigidez que grandes empresas tem em relação aos prazos de entrega dos produtos.

Na sua experiência, quais são os principais passos para se estabelecer um diálogo de qualidade com as comunidades?

Na realidade não há uma "receita" para se construir um diálogo de qualidade com as comunidades. Este diálogo é construído pelo respeito e experiências entre as duas partes. Sendo assim, ao invés de passos prefiro numerar algumas características importantes para esse relacionamento.

Desejo genuíno de colaborar com a comunidade. Os membros da comunidade percebem rapidamente as reais intenções das pessoas que os procuram, portanto é necessário ter intenções de colaborar com a comunidade, buscar o melhor para ela. Um ponto fundamental é a transparência no processo comercial. Esta transparência evidencia as dificuldades e como as decisões foram tomadas mostrando no dia-a-dia o cuidado com a comunidade.

Ter outras organizações como parceiros locais. As comunidades são vulneráveis. Qualquer problema de chuva ou seca, doença e falta de infraestrutura pode comprometer sua capacidade produtiva. Sendo assim, é importante contar com parceiros locais para dar apoio em momentos específicos.

Conhecer a comunidade e seu funcionamento. Para que haja diálogo é importante conhecer a comunidade. No início do nosso trabalho conhecíamos todas as comunidades que faziam parte de nossa rede. Hoje somos procurados por comunidades e indicados por ONG's. Para atender esse grupo e aumentar a nossa rede de comunidades, fizemos parceira com organizações como a ArteSol (Artesanato Solidário) e a Mundaréu. Elas trabalham com capacitação técnica e gerencial e nos ajudam a entender as características das comunidades, sua dinâmica de funcionamento e na identificação das lideranças.

Identificar e respeitar as lideranças da comunidade. Toda as comunidades tem lideranças que são imprescindíveis para a construção de uma boa relação com as comunidades. A liderança das comunidades pode ser subdividida em liderança institucional e de operação. A liderança institucional é aquela que representa a comunidade, é preciso ter sua aprovação para estabelecer um relacionamento com a comunidade. Por exemplo, sempre que vou à comunidade de Mumbuca, no Tocantins, visito Dona Miúda.  Esta descendente de índios e negros é respeitada e representa a comunidade em todas as ocasiões. Visitá-la demonstra respeito ao funcionamento, tradição e história da comunidade.

Já a liderança de operação é aquela que mobiliza e organiza os membros da comunidade para produzir os produtos. É importante conhecer o perfil dos líderes de operação, pois é deles que depende a o respeito aos prazos de entrega e a qualidade dos produtos.

Esses são os pontos fundamentais para a construção e manutenção de um bom relacionamento com comunidades.