Com o recente lançamento de mais um livro escrito por Muhammad Yunus, "Building Social Business", a discussão sobre a possibilidade ou, nesse caso, sobre a moralidade de se obter lucros com a base da pirâmide volta à tona.

Yunus é categórico em dizer que considera imoral o lucro através da venda de produtos ou serviços para os pobres. Segundo ele, isso seria se beneficiar do sofrimento de outros seres humanos e que a nossa decência proibiria tal atividade. Segundo ele, as empresas sociais (social business, em inglês) precisam ser lucrativas, mas esse lucro deve ser completamente reinvestido no próprio negócio central da empresa, de forma a maximizar o seu impacto social. Os investidores teriam de volta apenas o principal do que foi investido na empresa, sem correção de qualquer tipo.

Por outro lado, outros teóricos e práticos, argumentam que a melhor maneira para um negócio social alcançar escala e, assim, causar o maior impacto social possível é por meio do lucro e da distribuição de dividendos para os acionistas. Com isso, mais dinheiro seria atraído para o setor, mais atores se interessariam em criar modelos de negócio para a base da pirâmide e, portanto, mais o consumidor de baixa renda se beneficiaria. O preço mais alto cobrado pelos primeiros entrantes seria regulado pelo mercado e cairia, graças a uma maior competição entre as empresas oferecendo produtos e serviços similares.

Um dos melhores debates sobre esse assunto aconteceu entre Yunus e Michael Chu, professor de Harvard e fundador do Banco Compartamos, no México. O Banco Compartamos, que é seguidamente criticado por Yunus por cobrar taxas de juros que chegam a 100% ao ano em suas atividades de microcrédito, teve um IPO muito bem sucedido em 2007, quando levantou cerca de US$ 400 milhões. Esse encontro ocorreu em 2008, no Fórum Mundial de Microfinanças de Genebra e pode ser lido, na íntegra, através desse link:  http://tinyurl.com/2dpdx3q

Esse debate está longe de terminar e costuma gerar reações emocionais de ambos os lados, o que não é muito proveitoso para o setor. Argumentos ideológicos, sem embasamento em dados concretos, tanto de um lado quanto de outro, tendem a aumentar a divisão e a empobrecer a discussão. Faz-se necessário, portanto, uma avaliação criteriosa e aprofundada sobre os ganhos e as perdas de ambos os sistemas propostos. Será que o maior impacto social será alcançado por um modelo de baixo preço e crescimento mais modesto, sem retorno ao acionista, ou será que esse impacto será maior em um modelo com preços mais altos e com plano de crescimento e escala agressivo, com pagamento de dividendos? Essa resposta ainda não existe, mas quem a trouxer primeiro estará prestando um enorme serviço para esse novo setor, que pretende reduzir a pobreza através dos negócios.